A dor crônica é uma condição de elevada relevância clínica e importante impacto funcional, associada à redução da qualidade de vida e à necessidade de abordagens terapêuticas individualizadas. Entre os tratamentos convencionalmente empregados, incluem-se os analgésicos opióides, como morfina e oxicodona, os quais podem ser indicados em situações específicas, embora seu uso exija cautela em razão de riscos conhecidos, tais como tolerância, dependência, sedação, depressão respiratória, náuseas, vômitos e constipação.
Nesse contexto, substâncias como o canabidiol (CBD), um fitocanabinoide derivado de Cannabis sativa, vêm sendo investigadas na literatura científica como possíveis alternativas ou adjuvantes terapêuticos no manejo da dor crônica.
Os opióides exercem seus efeitos analgésicos principalmente por meio da ativação de receptores opióides no sistema nervoso central, modulando a percepção da dor. Apesar de sua utilidade em determinados contextos clínicos, seu perfil de segurança requer monitoramento rigoroso, especialmente diante do risco de uso prolongado, dependência e outros eventos adversos relevantes.
Quanto ao CBD, a literatura sugere que seus possíveis efeitos no contexto da dor possam envolver a modulação de múltiplas vias fisiológicas, incluindo o sistema endocanabinoide, vias serotoninérgicas, mecanismos relacionados à adenosina e processos inflamatórios. Também tem sido descrito que tais interações possam contribuir para efeitos analgésicos, anti-inflamatórios e moduladores de sintomas associados.
Assim, embora o CBD venha sendo objeto de crescente interesse científico como potencial opção terapêutica no contexto da dor crônica, sua utilização deve ser apresentada com cautela.
Dor crônica: prevalência, impacto e uso de opióides
- Dowell D, Ragan KR, Jones CM, Baldwin GT, Chou R. CDC Clinical Practice Guideline for Prescribing Opioids for Pain — United States, 2022. MMWR Recomm Rep. 2022;71(3):1-95.
Referência central para sustentar que opióides ainda são usados no manejo da dor, mas com avaliação rigorosa de risco-benefício. - CDC. About Prescription Opioids. Atualizado em 10 jun. 2025.
Muito útil para sustentar os riscos de dependência, overdose e morte associados a opióides prescritos. - World Health Organization. Opioid overdose. Atualizado em 29 ago. 2025.
Fonte institucional forte para a afirmação de que opióides podem causar dificuldade respiratória e que overdose por opióides pode ser fatal.
Efeitos adversos e limitações dos opioids
- Dowell D, Haegerich TM, Chou R. CDC Guideline for Prescribing Opioids for Chronic Pain — United States, 2016. MMWR Recomm Rep. 2016;65(1):1-49.
Ainda é uma referência importante para a descrição clássica de riscos como sedação, depressão respiratória e overdose, embora a diretriz de 2022 seja a atualização principal. - World Health Organization. Community management of opioid overdose. Geneva: WHO; 2014.
Útil para sustentar especificamente que, no contexto de overdose, a depressão respiratória é o principal problema fisiopatológico.
CBD no tratamento da dor: evidência geral
- Cásedas G, Yarza-Sancho M, López V. Cannabidiol (CBD): A Systematic Review of Clinical and Preclinical Evidence in the Treatment of Pain. Pharmaceuticals (Basel). 2024;17(11):1438. PMID: 39598350.
Boa revisão para sustentar que há interesse crescente no CBD para dor e que existe base pré-clínica e clínica inicial para efeito analgésico e anti-inflamatório. - Mohammed SYM, et al. Effectiveness of Cannabidiol to Manage Chronic Pain. Pain Management Nursing. 2024.
Revisão sistemática focada em CBD e dor crônica; útil, mas deve ser usada com ressalva metodológica, pois a literatura incluída é heterogênea. - Nascimento GC, et al. Cannabidiol and pain. Neurosci Biobehav Rev. 2024.
Revisão moderna sobre o tema, útil para contextualizar o potencial do CBD no manejo da dor. - Chou R, et al. Cannabis-Based Products for Chronic Pain: An Updated Living Systematic Review. 2025.
Essa é uma das melhores referências para sustentar uma redação equilibrada: alguns produtos canabinoides mostram benefício em certos desfechos, mas a evidência varia conforme formulação e não permite generalizações simples para CBD isolado. - Busse JW, et al. Medical cannabis or cannabinoids for chronic pain. BMJ. 2021;374:n2040.
Muito útil para dizer que canabinoides podem ser considerados em alguns contextos de dor crônica, mas dentro de uma tomada de decisão compartilhada, com expectativa modesta de benefício e atenção aos efeitos adversos. - Moore A, Straube S, Fisher E, Eccleston C. Cannabidiol (CBD) Products for Pain: Ineffective, Expensive, and With Potential Harms. J Pain. 2024;25(4):833-842.
Esta referência é importante justamente para evitar viés: há autores defendendo que os produtos de CBD disponíveis para dor têm eficácia incerta e não devem ser superestimados. O próprio resultado do search aponta essa crítica.
Mecanismos propostos de analgesia do CBD
- Mlost J, Bryk M, Starowicz K. Cannabidiol for Pain Treatment: Focus on Pharmacology and Mechanism of Action. Int J Mol Sci. 2020;21(22):8870.
Boa revisão mecanística para sustentar ação em múltiplas vias, incluindo inflamação, sensibilização nociceptiva e diferentes alvos moleculares. - De Gregorio D, et al. Cannabidiol modulates serotonergic transmission and reverses both allodynia and anxiety-like behavior in a model of neuropathic pain. Pain. 2019.
Boa para sustentar a menção ao receptor 5-HT1A e à relação entre analgesia e modulação serotoninérgica em modelos experimentais. - Naya NC, et al. Molecular and Cellular Mechanisms of Action of Cannabidiol. Molecules. 2023;28(17):6180.
Útil para sustentar a formulação de que o CBD interage com múltiplos sistemas, e não apenas com o sistema endocanabinoide. - Jung SM, et al. Adenosine receptors: Emerging non-opioid targets for pain treatment. Exp Mol Med. 2022.
Não é uma revisão específica de CBD, mas ajuda a sustentar tecnicamente a relevância da via adenosinérgica na analgesia. Para dizer que CBD participa dessa via, convém combinar com revisão mecanística de CBD.